sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

UM CACHORRO

A grande mãe guarda seus ressentimentos. Por isso, se descomedirmos uma parte sua, n’outrora avir-nos-emos com ela. Nos céus os ventos principiam a tormenta. As águas que começam a derramar-se, gota a gota, familiarizam-se com os dejetos com os quais as ruas e rios são contemplados. Há quem acredite que se trate do fim dos tempos. Há quem acredite que foi simplesmente uma fatalidade. Há quem acredite que somos mais podres que nossos dejetos e que, por isso, preferimos depositar o peso da culpa no outro. Eu acredito nisso. Se alguma sorte de criador obsequiou a terra, os céus e todas as águas que há neles, não haveria de dizimar todo o seu trabalho duro. Não vejo nisso sentido algum. Há não ser que o mesmo seja tão contraditório quanto pregam indiretamente por aí...
O grande pai não redime nosso gabo por duvidarmos de sua existência quando em nós a vida esvai-se. Mas se a grande mãe de que falo é quem carrega todo o fardo de nossa existência, não é ela quem deveria decidir se nos comiseraria? Competitivos como somos, há de termos jus ao amor que dela provém? Não mesmo! Somos egoístas a ponto de crer que somos o escopo do âmago de toda a ira que os deuses emanam. A grande mãe, como toda grande mulher que se preza, e tudo que nela há, deve, portanto, conosco findar-se. Até mesmo aquele pobre cachorro que escapou-se pelos braços de sua gorda dona. Ao pequeno e indefeso animal já foi dado o veredito final de nossa ínclita complacente justiça social: CULPADO!

Leonardo Nascimento